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Arranque do Festival de cinema de Berlim

Por RFI

Começa nesta quinta-feira, 7 de Fevereiro, o 69° Festival Internacional de Cinema de Berlim. Um acontecimento que acompanhamos no local com Rui Martins, ele é presença habitual neste certame e levanta-nos o véu sobre os principais ingredientes desta edição 2019.

Começa o 69° Festival Internacional de Cinema de Berlim. O nosso correspondente na Suíça deslocou-se a Berlim onde ficará até ao encerramento no dia 17.

Neste primeiro contacto, vamos pedir a Rrui Martins quais as novidades nesta nova edição do Festival.

Rui, parece que vai terminar uma época no Festival Internacional de cinema de Berlim também conhecido como Berlinale !

Podemos sim falar em fim de época. Quando for projectadoo primeiro filme do Festival Internacional de Cinema de Berlim, o director Dieter Kosslick, começará a contagem decrescente dos seus últimos dias de reinado no mundo do cinema.

Falas em reinado: Dieter Kosslick ficou assim tanto tempo como director do Festival de Berlim?

Acho que não estou a exagerar, Dieter Kosslick tinha 53 anos, quando deixou Hamburgo para assumir, em março de 2001, a direcção da Berlinale.

Hoje com quase 70 anos, Kosslick reforma-se com três anos a mais da idade máxima legal na Alemanha. São, portanto, 17 anos de Berlinale e coincidentemente de vegetarismo, pois Kosslick deixou de comer carne na mesma época em que se mudou para Berlim.

Conto isso, porque o director da Berlinale tem uma grande preocupação com a boa alimentação,longe dos produtos industrializados, tanto que criou na Berlinale uma mostra paralela de filmes ligados à culinária, também premiados com um Urso de prata.

Ele não interfere, pois na edição deste ano há um filme sobre a criação de aves e suínos e sobre a cozinha indonésia, nada vegetariana !

Fora isso, o Festival de Berlim tem um lado provocador !

Exactamente, poderíamos falar em festival engajado, mesmo na época da cidade de Berlim dividida, comunista e não comunista.

Essa abertura crítica é antiga e provocou a suspensão do festival em 1970 com a demissão do júri, dois dias antes da distribuição dos prémios, como ocorrera, em 1968, com o Festival de Cannes.

A causa foi o filme alemão de Michael Verhoeven, O.K., mostrando a violação e morte de uma jovem vietnamita por soldados norteamericanos, durante a Guerra do Vietname.

Berlim quebrou o tabu do homossexualidade nos países comunistas, premiando, em 1994, Fresa y Chocolate, do realizador cubano Thomas Gutierrez Alea.

Cannes premiou, em 1959, o filme Orfeu Negro com a Palma de Ouro, mas não premiou os seus actores negros. Assim, foi Berlim o primeiro festival a premiar uma negra como melhor actriz, a norteamericana Halle Berry, em 2001, que ganhou no ano seguinte, o Oscar pela interpretação em Monsters Ball.

E foi também o Festival de Berlim o primeiro a premiar, em 2013, uma negra africana com o Urso de melhor actriz, Rachel Mwanza, menina de rua congolesa, no filme canadiano de Kim Nguyen, Rebelde.

Este ano, o filme provocação é brasileiro !

Exactamente, este ano, a Berlinale mostra o filme brasileiro Marighela, líder revolucionário brasileiro na época da Ditadura Militar, numa provocação ao presidente brasileiro de extrema direita. Filme dirigido pelo actor agora realizador Wagner Moura, actor do filme Tropa de choque, Urso de Ouro aqui em Berlim.

Quais os filmes portugueses este ano na Berlinale ?

Já agora neste primeiro dia, temos o filme A Portuguesa, da realizadora Rita Azevedo Gomes, na mostra Fórum.

Ela inspirou-se num livro do escritor austríaco Robert Musil, no qual se conta a história de um portuguesa que se casa com um oficial militar e vai residir num castelo afastado no norte da Itália, e ali vive solitária na ausência do marido.

Sabe-se se há alguma filme da África lusófona ?

Sim, um filme do realizador angolano Carlos Conceição. cujos filmes Boa Noite Cinderela e Coelho Mau, estiveram na Semana da Crítica do Festival de Cannes em 2014 e 2017 respectivamente.

O seu novo personagem, também solitário, serpenteia por caminhos africanos com a intenção de chegar até a Europa. O título do filme, na mostra Fórum, é Serpentário.

Haveria também um filme luso-brasileiro?

Pois há! Tem um nome estranho Fordlandia Malaise, feito pela realizadora Susana de Souza.

Já ninguém se lembra, mas , em 1928, o criador da indústria automobilística Ford fundou uma cidade na Amazónia brasileira, Fordlândia, centro do período da produção de borracha para a produção dos pneus dos carros e camiões. Cidade abandonada com a deslocalização da produção da borracha para a Ásia.

Há ainda uma curta-metragem na competição internacional, é Past Perfect, de Jorge Jácome. Trata-se de um filme sem diálogo, no qual as imagens procuram transmitir conceitos no decorrer dos tempos, definidos pelo realizador como uma espécie de geografia da melancolia.

Algum destaque especial ?

Sim, um novo filme com Catherine Deneuve, dirigido por André Téchiné, Adieu à la Nuit. A actriz francesa Juliette Binoche, que já ganhou um Urso de Melhor Actriz, aqui em Berlim, é a presidente do júri da competição internacional.

A realizadora Agnès Varda mostrará, no decorrer do Festival, um documentário da sua vida no cinema, iniciada em 1954.

O realizador francês François Ozon exibirá, na competição internacional, o filme Grâce à Dieu, sobre actos de pedofilia envolvendo um padre católico em Lyon, protegido pelo bispo da cidade.

Filme actual, pois quase coincide com a decisão do julgamento do bispo Philippe Barbarin de Lyon, marcada para o dia 7 de março.

E para terminar, este ano não há nenhum filme lusófono na competição internacional das longas metragens.

Rui Martins, no Festival Internacional de Cinema de Berlim.