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França: a Origem do mundo de Courbet finalmente revelada

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Chamava-se Constance Quéniaux e era bailarina da Ópera de Paris, segundo "L'origine du monde, vie du modèle", a ser publicado em França a 4 de Outubro.. BnF/Département des Estampes

É uma história incrível ! Um historiador descobriu a identidade do modelo que posou para o pintor francês Gustave Courbet. O sexo de mulher que consta do quadro "A origem do mundo" é o de uma bailarina chamada Constance Quéniaux, amante do primeiro proprietário da tela, um diplomata turco em Paris.


O célebre quadro data de 1866: 152 anos volvidos fica esclarecido o mistério da identidade do modelo da tela mítica do pintor francês Gustave Courbet.

Constance Quéniaux, bailarina de ópera, nascida em 1832 e falecida em 1908 seria a mulher em questão.

Para além de bailarina era modelo e senhora de companhia da alta sociedade parisiense, ela foi das poucas pessoas a ser fotografadas nesses tempos remotos do século XIX.

Mas coube a Claude Schopp, sobretudo especialista de literatura, e não de pintura, a encontrar o nome de Quéniaux numa carta que o escritor Alexandre Dumas filho endereçara a George Sand.

Dumas filho conhecia bem Courbet, com quem fora amigo até se incompatibilizarem, e conta à escritora George Sand que se tratava da senhorita Quéniaux.

"On ne peint pas de son pinceau le plus délicat et le plus sonore l'interview de Mlle Queniault (sic) de l'Opéra", pode ler-se.

Uma frase incompreensível desta carta conservada na Biblioteca nacional de França.

Na realidade a frase em causa fala em "entrevista" da senhora "Queniault da Ópera"... quando em vez de "entrevista" se referia a "interior".

Na altura com 34 anos a bailarina em causa era uma das amantes de Khalil-Bey, diplomata do Império Otomano (actual Turquia) em Paris.

Na carta em questão Alexandre Dumas filho troça tanto do quadro, quanto do proprietário; "o turco que se alojava" às vezes no "interior" da sua amante.

A fotografia da bailarina em causa permite comprovar que a fisionomia e a pilosidade coincidem com as do modelo da tela de Courbet, que tanto escândalo provocou.

Claude Schopp é autor de um livro a ser publicado a 4 de Outubro em França sobre o caso "L'origine du monde, vie du modèle".

Segundo o autor o património de Constance Quéniaux permite atestar que, embora ela tivesse só pequenos contratos na Ópera conseguiu armazenar bens consideráveis, nomeadamente duas casas: uma em Paris, outra em Cabourg.

Uma situação que lhe terá sido viabilizada com a companhia de senhores da alta sociedade.

Porém nunca casou nem teve filhos e teria mesmo preferido a companhia de mulheres, pelo que se poderia supor que fosse mesmo lésbica.

A modelo da tela de Courbet não tinha sido reconhecida pelos pais, pobre acaba por ser recrutada para a Ópera com 14 anos.

No inventário dos seus bens foi encontrado também um quadro de Courbet, prova que ambos se conheciam.

Ela nunca teria comentado abertamente ter sido o modelo do quadro em causa, tanto mais que ao chegar aos 50 anos se dedica a obras de caridade, como órfãos ou cegos.

Nas fotografias de Constance Quéniaux conservadas na BNF em Paris a anatomia da bailarina fica, desta feita, bem dissimulada pelos adereços de ballet.