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Falta de renovação do glifosato é "boa notícia"

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Protesto em frente à Comissão Europeia. 9 de Novembro de 2017. EMMANUEL DUNAND / AFP

Os países da União Europeia não chegaram a acordo, esta quinta-feira, para a renovação da licença de utilização do glifosato por cinco anos. Esta é uma “boa notícia” para a investigadora Vera Silva, da universidade holandesa Wageningen, que fez um estudo em que concluiu que Portugal é o país europeu que mais usa glifosato.


A proposta de renovação da licença de utilização do glifosato por cinco anos vai novamente a votos na Comissão Europeia no final de Novembro. Para ser validada, a proposta do executivo europeu deve recolher o apoio de 16 dos 28 estados-membros que representem, pelo menos, 65 por cento da população da União Europeia.

Para a investigadora Vera Silva, da universidade holandesa Wageningen, esta é “uma boa notícia”, ainda que alerte que é preciso ver se, de facto, essa renovação não vai acontecer e “como é que os Estados-membros vão reagir a esta decisão”.

A Comissão Europeia propôs o prolongamento da licença de utilização do glifosato durante cinco anos já que a actual licença caduca a 15 de Dezembro. Mas o projecto está longe de recolher a unanimidade. A França, por exemplo, defende o fim da utilização do glifosato daqui a três anos.

O glifosato é um herbicida largamente utilizado em todo o mundo e, em Março de 2015, foi classificado pela Organização Mundial de Saúde como “provável causador de cancro”. Porém, a Autoridade Europeia de Segurança dos Alimentos e a Agência Europeia de Produtos Químicos consideraram “improvável” esse risco. Um número crescente de organizações internacionais defende a sua proibição.

Em vez dos dez anos de prolongamento da licença, a Comissão Europeia propôs cinco anos, fruto da avaliação de risco feita pelo Parlamento Europeu que defendeu a proibição de glifosato em parques públicos e parques infantis, assim como nas suas imediações.

 

Portugal é o país europeu que mais usa glifosato

Vera Silva participou num estudo publicado na revista académica "Science of the Total Environment" que concluiu que Portugal é o país europeu que mais usa glifosato. O estudo recolheu mais de 300 amostras de 11 estados-membros e "cerca de metade têm resíduos de glifosato".

As amostras portuguesas recolhidas em vinhas da Bairrada foram as mais alarmantes.

"O que nós abservámos foi que Portugal tinha das maiores concentrações de glifosato ou da degradação do glifosato nos solos (...) Verificámos que existem países, como Portugal, que apresentam uma elevada taxa de poluição dos solos por glifosato e taxas realmente muito elevadas", indicou Vera Silva.

Os dados não representam todos os solos, mas a investigadora considera que podem ser “indicativos” do resto do país.

"Não temos dados de todo o país. Temos dados de solo agrícola e temos dados de diferentes zonas que podem ser indicativos da situação nas restantes zonas dos países porque as culturas são semelhantes e o método, as taxas de aplicação e altura de aplicação do glifosato ou de herbicidas à base de glifosato são também semelhantes a nível nacional, pelo que os dados que temos são indicativos do que pode acontecer nas outras zonas não amostradas", acrescentou.

Oiça aqui a entrevista:

Vera Silva, Investigadora da universidade holandesa Wageningen 09/11/2017 ouvir

O uso do glifosato a nível mundial

O glifosato foi proibido no Sri Lanka, em Junho de 2015, por suspeitas de ser o causador de uma doença renal crónica nas pessoas que vivem junto a arrozais.

Nos Estados Unidos, a Agência de Protecção do Ambiente continua a classificar o glifosato como “provavelmente não cancerígeno para o homem”, mas a Califórnia classificou-o como cancerígeno e várias cidades proíbem o herbicidanos parques e jardins públicos.

Na Europa, há apenas restrições locais:

Em França, a sua utilização nos espaços abertos ao público foi proibida a 1 de Janeiro deste ano.

Na Itália, o seu uso é proibido desde 2016 em parques, campos desportivos, jardins infantis.

No Reino Unido, o governo é favorável à sua utilização, mas várias localidades cessaram de utilizar o glifosato: Hammersmith e Fulham em Londres, Brighton e Cornualha e Edimburgo, na Escócia.