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Filme sobre jihadistas Timbuktu causa polêmica em festival na África

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Cena do filme "Timbuktu", do cineasta Abderrahmane Sissako. festival-cannes.com

A estreia no maior evento de cinema africano de "Timbuktu", o novo longa do cineasta mauritanês Abderrahmane Sissako, deveria ser o auge do triunfo para a obra que retrata a violenta ocupação do norte do Mali por jihadistas. Mas, depois de ser nomeado ao Oscar de melhor filme estrangeiro e de receber sete prêmios no César no dia 20 de fevereiro, o longa foi retirado da competição e da programação do Festival Panafricano de Cinema de Uagadugu (Fespaco) “por medida de segurança”. Na tarde desta sexta-feira (27), a organização anunciou que finalmente “Timbuktu”fará parte do evento.


“O governo do Burkina Fasso decidiu pela exibição de ‘Timbuktu’”, declarou hoje, depois de muito suspense, o ministro burquinabê da Cultura, Jean-Claude Dioma. Ele lembrou, no entando, que o evento terá medidas de segurança reforçadas.

O Fespaco será realizado a partir deste sábado (28) até a próxima sexta-feira (6) e, depois de muita polêmica, contará com sua principal estrela. O aclamado longa de Sissako estava previsto para ser exibido no penúltimo dia do evento, mas a organização voltou atrás “por medidas de segurança” e retirou "Timbuktu" do programa nesta semana.

Informações desencontradas

Para o festival, o corte era “inevitável”. O comunicado sobre a eliminação de "Timbuktu", como prometido pela organização do Fespaco, nunca chegou a ser emitido. O festival também afirmou que a decisão foi tomada em conjunto com o cineasta – informação desmentida por Sissako. Algumas horas antes da decisão do governo burquinabê de reintegrar o filme ao evento, o diretor mauritanês havia expressado sua indignação em um comunicado.

Interrogado se houve uma ameaça concreta contra a exibição de "Timbuktu", o assessor de imprensa do Fespaco, Gervais Hien, alega que o perigo, na região “é geral”, especialmente pela situação tensa no Níger. No dia 16 de janeiro, o Centro Cultural Francês de Níger foi incendiado durante uma manifestação contra a polêmica edição pós-atentados do jornal satírico Charlie Hebdo, que estampou o profeta Maomé na capa com a mensagem “Tudo está perdoado”. Confrontos durante o protesto resultaram em 4 mortos e 45 feridos.

Prejuízo

Em entrevista à RFI, Sissako disse que cortar o filme do festival é uma decisão que fere a liberdade do povo de Burkina Fasso. “Impedi-lo de ver 'Timbuktu' é, na minha opinião, um verdadeiro prejuízo. Defender a projeção do filme em Uagadugu é defender as ideias que esta obra traz”, declarou.

Ao jornal Le Monde, o cineasta também revelou que teve uma conversa com uma autoridade do Burkina Fasso, que, ao informar a decisão inicial sobre a retirada do filme da programação e da competição da Fespaco, parecia “envergonhado”, segundo o diretor. “Ele me falou sobre ameaças contra a projeção do filme e contra a minha pessoa”, reiterou Sissako, ressaltando que não está “absolutamente” de acordo com a decisão.

Final feliz

Quarto filme de Sissako, "Timbuktu" mostra o terror exercido pelos extremistas religiosos sobre as populações do norte da África, através da história do casal Kidane e Fatima, de sua filha Toya e de Issan, um pequeno pastor de ovelhas.

Sissako conta que decidiu escrever e filmar o longa ao tomar conhecimento de um drama ocorrido no Mali. Um casal não unido oficialmente foi lapidado até a morte em um vilarejo no norte do país. "Ninguém falou nessa tragédia. Estamos ficando indiferentes ao terror, temos que ficar atentos", ele diz.

"Timbuktu" foi aclamado no último festival de Cannes e nomeado como para o Oscar de melhor filme estrangeiro, que ficou com o polonês “Ida”, no domingo passado (22). Na última edição do Cesar, na última sexta-feira (20) a obra de Sissako levou sete prêmios, entre eles os de melhor filme, melhor diretor, melhor edição, melhor som e fotografia.