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Boate Kiss Buenos Aires Costa Concordia Santa Maria Tragédia

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Um ano depois, punições pela tragédia da boate Kiss continuam incertas

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O discoteca Kiss foi totalmente destruída pelo fogo REUTERS/Policia Civil/Handout

Argentina, 2004: 194 mortos na Boate Cromañon. A primeira condenação pelo caso ocorre cinco anos depois. Itália, 2012: 32 mortos no naufrágio do navio Costa Concordia. A primeira condenação pela tragédia ocorre quinze meses depois. Ao completar um ano nesta segunda-feira, as investigações do caso da boate Kiss, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, apresentam um emanharado jurídico que não alimenta nenhuma esperança de punições rápidas dos culpados.

 


A comparação com outras tragédias pelo mundo apresenta dados pertinentes para avaliar o andamento do processo da Kiss. No caso de Buenos Aires, bastante similar ao de Santa Maria, o proprietário da discoteca ficou preso por cerca de 3 anos, em diferentes períodos, ao longo dos oito anos que se passaram até ser condenado de forma definitiva.

Na tragédia brasileira, os quatro principais acusados, os sócios da boate, o vocalista da banda e o produtor do grupo foram soltos em maio, após 4 meses de prisão. Em Buenos Aires, além da condenação do proprietário da casa noturna, o prefeito da cidade sofreu um processo de impeachment, sendo destituído dois anos depois.

Enquanto preparam uma série de eventos e protestos para marcar um ano da tragédia que matou 242 jovens, os pais das vítimas e os sobreviventes se inquietam ao constatar a lentidão do processo. E começam a se perguntar se as infindáveis possibilidades de recursos e protelações possibilitados pelo sistema jurídico brasileiro resultarão em penas brandas ou até mesmo em impunidade.

“A Justiça neste momento está com a venda nos olhos e não consegue ver o nosso clamor, a nossa dor e o nosso sofrimento”, afirma Adherbal Alves Ferreira, um empresário de 49 anos que perdeu a filha na tragédia e que preside a Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes. Ele protesta: “Ainda não há ninguém preso, estão todos liberados. Ainda estamos na fase das oitivas, o que é um absurdo. Já deveríamos partir para as testemunhas para elucidar esse caso de uma vez. Há um protecionismo que não entendemos, porque a Polícia Civil fez um inquérito correto, mas o Ministério Público desqualifica. Não conseguimos entender por que as respostas não vêm.”

Desde o último mês de junho, já foram colhidos cerca de 90 depoimentos, entre sobreviventes e testemunhas. A expectativa é de ouvir 217 pessoas no total, o que dá uma ideia do tempo que levará esta etapa da investigação. Nada deve estar terminado antes do segundo semestre de 2014. Nesta semana, a defesa do principal acusado, o sócio da boate Elissandro Spohr, entrou com um pedido para que mais de 600 testemunhas sejam interrogadas, uma manobra protelatória que acabaria de vez com as perspetivas de um julgamento rápido.

Sobreviventes enfrentam sequelas da fumaça

Distantes dos tribunais, as vítimas sobreviventes lutam contra os nocivos efeitos da fumaça tóxica que inalaram durante o incêndio. O jovem Juliano Almeida da Silva, de 22 anos, que ficou 39 dias internado na UTI após o incêndio, passou o ano sob tratamento ao lado da namorada. Ambos escaparam por pouco das chamas da Kiss. Ele não crê que justiça será feita tão cedo e agora tenta voltar à rotina normal de trabalho.

“Não atingiu tanto o nosso psicológico, meu e da minha namorada. Mas foi um ano diferente. Fazemos fisioterapia terças e quintas-feiras e eu ainda tenho um pulmão que ventila muito mal. Acho que o tratamento vai levar pelo menos mais dois anos”, diz ele.

Para Adherbal Ferreira, as sequelas serão eternas: “É muito difícil porque tenho que conciliar as duas coisas, sendo pai, trabalhando, mesmo que eu nem consiga mais trabalhar direito, e ao mesmo tempo presidente de uma associação que não precisava existir, que engloba vários pais heterogêneos, várias pessoas que a gente não conhecia até então. É um momento novo pra nós. Difícil poder guiar todo mundo. A minha vida mudou muito. Já nem sei mais quem eu sou. Mas estou conseguindo levar adiante. É meu dever como cidadão e como pai, porque a minha filha provavelmente faria o mesmo por mim.”