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Angola: Luanda vive em clima de insegurança

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Luanda, capital angolana. Getty Images/Kostadin Luchansky - Angola Image Bank

Um suposto grupo de marginais e de sequestradores tidos como altamente perigosos denominados "CUNA-MATA" tem estado a criar pânico em vários pontos de Luanda com destaque para os municípios de Viana, Belas e Kilamba Kiaxi. A polícia tenta serenar os ânimos.


A capital angolana voltou a sofrer mais um susto que deixou os luandenses em pânico num clima de insegurança semelhante ao da era "Caixão Vazio", no final da década de 90. Desta vez, depois de vários relatos, houve denúncias no que diz respeito à existência de um suposto grupo de marginais.

A reportagem da RFI em Luanda ouviu nesta sexta-feira, nos bairros de Viana estalagem, Calemba 2 e Avo kumbi no Município do Kilamba Kiaxi, os relatos das denúncias vindas daquelas zonas, mas ao que podemos constatar, trata-se de um boato instalado, e que tem estado a criar um sentido de insegurança.

Em Viana conversamos com os mototaxistas que nos disseram terem ouvido rumores, mas que concretamente até agora nada viram, e indicaram-nos a escola número 5, no Bairro Caop, onde se dizia ser o local onde alguns alunos terão sido injectados com água de bateria dos supostos "CUNA-MATA".

Nas imediações do mercado de Avo Kumbi, no Kilamba Kiaxi, António Paulo "diz tratar-se de um grupo de criminosos que saíram da prisão infectados e não querem morrer sozinhos, procuram espalhar a doença com objectos contundentes". Quanto à comerciante Tatiana diz ter encerrado a sua loja por medo, "a polícia tem que fazer alguma coisa, ontem fugimos e fechamos as cantinas quando ouvimos que o grupo estava a vir", narra com medo de se repetir o episódio que obrigou até encarregados de Educação a acorrer às escolas em busca dos seus filhos devido ao pânico instalado.

Em virtude dos rumores, durante a nossa ronda, foi visível em várias escolas, ver encarregados com um semblante de preocupação, esperando em cada portão da escola o seu filho, com o medo de ser atacado, enquanto que outros em conversa, proibiram os seus filhos de ir à escola até que este sentimento de insegurança passe.

De forma a tranquilizar a população a Polícia Nacional através do seu porta-voz, Mateus Rodrigues, diz tratar-se de um falso alarme e disponibilizou o contacto do gabinete de comunicação institucional do comando provincial de Luanda. O porta-voz também apelou aos cidadãos que, em caso de alguma informação, denunciem através do terminal: +244914041039.

Segundo Mateus Rodrigues : "Diligências continuam em curso para o esclarecimento da situação e para a reposição do sentimento de segurança das populações de Luanda."

Lembre-se que a sociedade angolana é fértil em criar mitos e muitas vezes a ficção confunde-se com a realidade. Há cerca de 20 anos, o país entrou em pânico com o surgimento do denominado grupo "Caixão Vazio" que fez mais danos do que todos os grupos de marginais que surgiram nos últimos anos.

Rezava a lenda que os elementos do "Caixão Vazio" atacavam as escolas onde raptavam ou matavam alunos e professores, colando uma das partes do corpo das vítimas no quadro da escola. As raparigas seriam as mais afectadas nestas confusões, já que, supostamente, os marginais arrancavam-lhes os seios e o sexo estampando-os de seguida nas salas de aulas.

A verdade é que nunca se provou a existência de qualquer caso. Tudo não passou de um enorme boato, só que, o verdadeiro problema, é que as populações interiorizaram que o grupo existia e esventrava as vítimas. Por isso, sempre que alguém gritava "Caixão Vazio"as pessoas fugiam que nem loucas. Nas salas de aulas, os professores deixavam os alunos à sua sorte e o caos instalava-se. Durante semanas escolas não tiveram alunos.

Aproveitando-se do medo instalado, não faltou quem utilizasse o nome "Caixão Vazio" para antecipar o fim-de-semana.

Ouça aqui a reportagem de Daniel Frederico.

Reportagem de Daniel Frederico 01/06/2018 ouvir