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Cacofonia em torno do Aquarius

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Refugiados a bordo do Aquarius neste dia 12 de Junho. REUTERS/Guglielmo Mangiapane

A Itália deu início hoje aos preparativos para o transporte dos 629 migrantes a bordo do navio humanitário Aquarius que, após terem sido socorridos ao largo da Líbia no fim-de-semana, não foram autorizados a desembarcar nem em Malta nem na Itália, o novo governo de Espanha tendo sido o único ontem a disponibilizar-se a acolher esses migrantes.


Os 629 migrantes a bordo do Aquarius preparam-se agora a enfrentar mais 4 dias no mar até chegar ao seu destino. Dado que o navio humanitário fretado pela ONG francesa "SOS Méditerranée" está sobrecarregado, os migrantes deveriam ser repartidos por mais dois barcos disponibilizados pela Itália para facilitar a sua transferência até ao porto de Valência em Espanha.

A recusa de Malta e sobretudo da Itália em acolher esses migrantes não deixou de suscitar reacções. A tomada de posição de Roma foi saudada pelo Primeiro-Ministro nacionalista húngaro Viktor Orban, mas do lado da França o tom é mais crítico. O Presidente Macron denunciou o "cinismo" e "irresponsabilidade" do novo governo italiano, enquanto o chefe da diplomacia francesa, Jean-Yves Le Drian, apelava Roma a voltar atrás na sua decisão. Em resposta, o novo chefe do governo italiano de coligação com a extrema-direita, Giuseppe Conte, retorquiu que Roma "não aceita receber lições hipócritas de um país que sempre preferiu virar as costas quando se trata de imigração".

Também a nível interno, o chamado caso "Aquarius" tem sido um motivo de embaraço e de cacofonia política. Hoje, nacionalistas corsos mostraram-se disponíveis para acolher os migrantes mas, logo em seguida, Eric Ciotti, deputado republicano (de direita) dos Alpes Marítimos, no sul, apelou a uma "grande firmeza" dizendo que "nenhum porto francês deve acolher o Aquarius". Esta não foi contudo a posição defendida por cerca de 30 deputados da maioria presidencial que criticaram o silêncio da França sobre esta questão, um silêncio quebrado pelo Primeiro-Ministro Edouard Philippe ao declarar, sem entrar em pormenores, que a "França está disposta a apoiar os espanhóis no acolhimento dos migrantes".

Perante esta polémica, a ONG francesa "SOS Mediterranée" que tem conseguido no espaço de dois anos socorrer uns 30 mil migrantes ao largo da Líbia, já disse que vai continuar na mesma linha. A MSF, Médicos Sem Fronteiras, que também participa nas operações de socorro, lamentou que os migrantes "já esgotados" tenham que suportar dias suplementares de viagem.

Refira-se entretanto que, paralelamente a esta controvérsia, outros 937 migrantes socorridos hoje ao largo da Líbia já estão a caminho da Sicília e deveriam desembarcar nessa ilha amanhã, desta vez com luz verde das autoridades da Itália.

No espaço de cinco anos, a Itália acolheu mais de 640 mil migrantes e refugiados, um fluxo que tem vindo a diminuir ultimamente após a conclusão por este país em 2017 de um acordo com a Líbia para estancar os fluxos migratórios a partir do seu território. De acordo com a Amnistia Internacional, os migrantes "são alvo de tortura, detenções arbitrárias, extorsões e são mantidos em condições inimagináveis nos centros de detenção geridos pelo governo líbio".